A ilha das onze

O barqueiro desatou o nó que prendia a pequena embarcação ao cais da pobre aldeia piscatória. Enquanto o fazia reparou nas suas mãos gastas pelo tempo, pelo sal, pelo sol, pelo trabalho duro ao longo de anos a fio, já tinha perdido a conta ao número de vezes que repetiu o mesmo ritual para zarpar rumo ao mar alto.

Naquela manhã de nevoeiro sentia-se diferente, tinha sido invadido por uma nostalgia imensa, ligou o motor do seu pequeno barco envelhecido e adentrou o nevoeiro rumo à ilha deserta a poucas milhas de distância, conhecia aquele mar como poucos e sabia perfeitamente quais as zonas junto à ilha onde a sorte tinha mais probabilidades de lhe sorrir.

O mar estava calmo, envolvido pelo denso nevoeiro deixou-se embalar pelo matraquear do motor e o barulho suave que a proa fazia ao abrir caminho pelas águas geladas, não se via nada além de 2 metros em cada direcção, mas sabia bem o rumo a tomar, tinha experiência e esta guiava-o mesmo às cegas.

A nostalgia fê-lo recuar muito anos, mentalmente viu-se novamente nos cuidados de sua mãe, recordou o pai de personalidade vincada, quase austero, mas justo e com quem aprendeu a arte da pesca desde muito novo.

Desde quando fazia isto? – pensou, parecia-lhe desde sempre!

O pai, mestre na arte da pesca, morreu a trabalhar em condições que nunca chegaram a ser explicadas, um dia foi para a faina juntamente com o Ti Jaquim, seu parceiro de pesca toda a vida e nunca mais voltaram, desapareceram sem deixar rasto, nem barco, nem corpos, nem tão pouco algum artefacto da embarcação, absolutamente nada deu à costa!

Já a sua adorada mãe viveu mais uns anos, mas sempre marcada pelo luto e desgosto de ser uma viúva sem corpo para velar, sem uma explicação do sucedido.

Voltou a focar a sua atenção no escasso mar que conseguia vislumbrar à sua frente, pelos seus cálculos deveria estar quase a chegar junto à ilha, desligou o motor e o barco manteve-se a deslizar por uns momentos.

Com o motor desligado e a pequena embarcação já praticamente parada, aguçou os ouvidos em busca do som das ondas junto à costa que deveria estar bem perto e à sua frente.

No entanto não ouvia o esperado som das ondas, nem das gaivotas habitualmente em grande número naquelas paragens – raios – pensou – desta vez perdi a noção – e tinha de facto perdido a noção de espaço e tempo, já que em grande parte do caminho percorrido esteve distraído com memórias de tempos idos!

Não restava outra alternativa que não fosse deixar o nevoeiro levantar, pois não iria arriscar continuar às cegas quando tinha perdido a orientação. Calmamente esticou-se ao comprido, ficando mesmo à justa no pouco espaço disponível e embalado pelo leve balançar do mar deixou-se dormir.

Acordou com o sol a queimar-lhe a pele, quanto tempo esteve a dormir? Não fazia ideia, levantou-se e olhou em volta… inquieto constatou que não vislumbrava absolutamente nada além de mar e céu, rapidamente confirmou duas vezes em 360 graus, só a linha do horizonte, nada mais.

Olhou a posição do sol e verificou o seu relógio de pulso, 11h – irra que dormi muito tempo!

Colocou o motor a trabalhar e tomando em linha de conta a hora e a posição do sol, dirigiu o barco para terra, longe ou perto a terra firme era naquela direcção.

Passou cerca de meia hora a navegar em linha recta, era tempo demais e nada de terra à vista! – mas como foi parar tão longe? As correntes naquela zona nem sequer são fortes! – estas indagações estavam a deixá-lo nervoso – e o gasóleo deve estar quase no fim – pensou confuso, enquanto desligava o motor, abriu o depósito e espreitou lá para dentro – bastante menos de meio – tornou a fechar o depósito e sentado bebeu um pouco de água de uma das garrafas que tinha – ao menos de sede não morro.

Abriu a marmita como que para confirmar a presença de duas sandes de presunto e meia garrafa de vinho, estava cheio de fome, mas o instinto levou-o a comer só metade de uma sandes e deu dois goles generosos no vinho.

Fechou tudo novamente e a imagem do pai desaparecido veio-lhe à mente, empurrou o pensamento para longe, limpou a boca à manga da camisa e ligou novamente o motor da embarcação – o continente fica naquela direcção, tenho a certeza – e a tentar convencer-se a si próprio largou rumo ao horizonte.

Aproximadamente 10 minutos depois observou uns corvos marinhos e uma mão cheia de gaivotas – graças a Deus – disse para si próprio e logo de seguida vislumbra terra no horizonte, sorriu de felicidade e continuou nessa direcção, já com um estado de espírito de alívio.

Já mais perto de terra firme repara que não reconhece a paisagem, mais do que isso, aparentemente era uma ilha e não muito grande!

– Caraças, onde estou eu? – indaga perante a ilha na sua frente, a pouca distância percebia uma florestação densa, uma serra considerável posicionada sensivelmente no centro da ilha e nada de traços de civilização.

Do seu lado esquerdo percebeu o que parecia uma enseada natural, resoluto dirigiu o barco nessa direcção.

Era uma praia em forma de ferradura, a areia protegida do mar aberto fez lembrar-lhe São Martinho do Porto embora mais pequeno, dirigiu o barco rumo à areia, desligou o motor e deixou-se ir a deslizar com o embalo, bateu levemente na margem, saltou para a areia e puxou a pequena embarcação o máximo que conseguiu, estava maré cheia, prendeu o barco a uma rocha ali à mão no meio da areia e sentiu confiança de que o barco não sairia dali – agora a maré começa a vazar e está tudo bem – pensou.

Ainda tinha bastantes horas de sol, como tal lembrou-se de comer a outra metade da sandes, um pouco de vinho para aconchegar, esvaziou a mochila com tralhas de pesca e meteu lá a outra sandes, com uma garrafa de água, colocou-a às costas e partiu na direcção do ponto mais alto da ilha.

Não fazia ideia de que ilha era esta, o tempo estava anormalmente quente e a vegetação era densa, a juntar a isto não conhecia a maioria das espécies de árvores e da vegetação em geral, pássaros de cores vivas esvoaçavam de árvore em árvore, parecia uma paisagem tropical como já tinha visto num filme qualquer na televisão velha de sua casa.

Como não tinha nada que lhe servisse de catana, teve de desviar caminho várias vezes, mas sem nunca perder o objectivo de subir a serra.

Transpirava abundantemente, o calor era insuportável, já tinha bebido a água quase toda, estava cada vez mais preocupado e confuso, parou um pouco e consultou as horas, marcava 11h – pelos vistos o relógio avariou – pensou, já tinha passado imenso tempo desde a última vez que tinha visto as horas e continuava nas 11, no entanto reparou no ponteiro dos segundos e este mantinha-se em movimento – estranho – ao mesmo tempo que olhou para cima, mas a copa das árvores era demasiado densa para conseguir percepcionar a posição do sol.

Nesse ponto começa a distinguir o barulho de uma corrente de água ao longe, a sede reclamou e decidiu ir nessa direcção. Bastantes metros à frente deparou-se com uma cascata pequena mas com água abundante e um pequeno lago.

Foi directo à cascata, começou por beber água timidamente, mas com o calor abrasador avançou para debaixo da torrente fresca mesmo sem tirar as roupas e manteve-se a refrescar uns longos minutos.

Depois de encher a sua garrafa com água decidiu continuar a subida, era urgente alcançar o cimo da elevação antes de anoitecer.

Passaram aproximadamente duas horas até conseguir chegar ao cume, estava exausto, sentou-se numa saliência rochosa e enquanto descansava observou o horizonte e a ilha em todas as direcções, para onde quer que olhasse não se via nada mais do que mar e a ilha não apresentava nenhum vestígio de construções feitas pelo homem.

Encontrava-se no ponto mais alto de uma ilha não muito grande, com uma floresta densa, todo o lado norte aparentava terminar em altas falésias rochosas junto ao mar, no lado sul vislumbrava bastantes praias, a sudoeste estava a pequena enseada onde tinha desembarcado e a sudeste uma linha de costa com praia contínua.

Reparou também que um pouco a Norte de onde se encontrava existia uma elevação um pouco mais baixa do que esta onde se encontrava, deveria ter uma nascente pois via uma pequena cascata ao longe, deveria pertencer à mesma linha de água que encontrou no caminho, felizmente a ilha tinha pelo menos uma nascente de água doce.

Olhou mais uma vez as horas, continuava a marcar 11h em ponto e o ponteiro dos segundos aparentemente a funcionar normalmente, verificou a posição do sol e percebeu que deveriam ser umas 17h, estava exausto, sem ideias e com medo, olhou mais uma vez toda a linha de costa à sua volta, reparando que não muito longe de onde tinha deixado o barco existia um local sem árvores, parecia-lhe um lago com uma pequena elevação rochosa numa das margens – será que o curso de água da cascata vai ter ali? – pensou – amanhã vejo o que será aquilo, para já tenho de ver onde vou passar a noite, já não tenho tempo de ir até ao barco – mas depressa lhe ocorreu que não iria preocupar-se nem mais um minuto com isso, estava no ponto mais alto da ilha, quando a noite cair conseguirá ver alguma luz que indique civilização por perto, além disso, entrar pela floresta dentro para passar a noite não lhe agradava nadinha.

No dia seguinte teria de pescar, mas no momento decidiu comer o restante farnel e terminou o vinho também. Após esse lanche, ainda arranjou força para apanhar lenha junto às árvores mais abaixo, juntou os maiores toros que encontrou pois queria ter lume toda a noite, empilhou-os, sacou o isqueiro que tinha por hábito sempre consigo e acendeu-o enquanto o sol se punha no horizonte.

Não estava vento, logo não existia perigo de uma fogueira tão grande, mas também não estava frio, pelo que o lume servia unicamente como defesa contra animais e alerta para algum barco que passasse junto à ilha.

Esteve acordado até altas horas da madrugada, por cima da sua cabeça ficava o mais estrelado céu que já vira, mas não conhecia as estrelas, algo estava de facto muito mal explicado, já que nem o céu era igual ao que sempre conhecera.

Durante as longas horas a observar minuciosamente tudo e em todas as direcções, manteve-se sempre sem vislumbrar um único vestígio humano, nunca viu nenhuma luz na ilha, nenhum barco, nem tão pouco nenhum avião. O cansaço acabou por vencer e dormiu algumas horas.

Acordou com o dia a clarear, a fogueira ainda fumegava e o céu estava limpo, olhou o relógio mais por hábito do que com esperança de ver as horas, continuava a marcar 11h, encolheu os ombros e decidiu pôr-se a caminho de imediato, tinha muito para fazer e a sua preocupação principal no momento era não morrer à fome.

Tentou tomar o mesmo caminho que tinha feito na véspera, conseguiu chegar à cascata onde se abasteceu de água doce e aproveitou para mergulhar no pequeno lago, deixou-se relaxar um pouco enquanto secava, mas decidiu continuar pois não tinha tempo a perder, andou durante algum tempo até que finalmente chegou ao barco já cheio de fome, deixou de parte tudo o que tinha ligação à sua actividade profissional principal (apanha de mariscos e polvo) pegou em duas canas de pesca e aproveitou a maré baixa para procurar moluscos na areia.

Sem dificuldade apanhou uma quantidade considerável de uma espécie que lhe parecia ameijoa, abriu-as com mestria e ajuda do seu canivete, arrancando o molusco para servir de isco.

Pegou nas canas, iscos, anzóis e chumbos, dirigiu-se a uma zona rochosa na sua esquerda e tentou a sorte na pesca, assim esteve aproximadamente uma hora, pescou 3 peixes generosos e decidiu parar, e enquanto se dirigiu novamente para junto do seu barco algumas ideias assombraram-lhe a mente – Como pescar quando ficar sem anzóis? Como acender fogueiras depois de o isqueiro ficar sem gás? Como caçar? Quanto tempo iria ficar naquela ilha desconhecida? – obrigou-se a deixar de pensar nisso, levar um dia de cada vez era o mais saudável e fácil de gerir.

Passaram alguns dias, já de barba irritantemente farta, mantinha-se ocupado entre construir um abrigo com os ramos e folhagens que tinha à mão, apanhar umas bagas desconhecidas mas que arriscou provar (eram saborosas e não lhe fizeram mal), deslocava-se diariamente à cascata de água doce e já tinha arriscado fazer umas armadilhas com cordas e uns ramos (truques que se lembrava de brincadeiras de miúdos), mas até ao momento nenhum animal tinha caído numa delas, felizmente a pesca andava-lhe a correr bem.

Hoje decidiu explorar uma zona da ilha que ainda não conhecia, recordava-se de ter visto do ponto mais alto um local sem árvores, pareceu-lhe um lago com uma pequena elevação rochosa numa das margens, talvez o curso de água doce vá ali ter, ou que tenha mais condições para abrigo. Meteu-se a caminho.

Não demorou muito tempo a chegar ao destino que tinha traçado, não fosse a desgraça de estar sozinho a lutar pela sobrevivência e aquele pedaço da ilha (já de si lindíssima) tinha uma beleza arrebatadora!

Começou por provar a água, era salobra, de facto o curso de água terminava naquele grande lago, mas como o mar também tinha acesso por uma pequena entrada entre duas rochas, a água estava misturada.

Olhou atentamente em todas as direcções e deu conta que do outro do lago existia o que lhe pareceu uma cabana! Com o coração disparado apressou-se a dar a volta ao lago (o que ainda lhe demorou cerca de 25 minutos), chegando perto, teve a certeza que era uma construção já velha, mas sem qualquer dúvida, tinha sido feita pelo homem!

Embora aparentasse estar ao abandono, antes de arriscar entrar decidiu gritar – ESTÁ AÍ ALGUÉM? – mas como resposta recebeu simplesmente silêncio.

A cabana tinha sido construída com tábuas do que parecia ter pertencido a um barco de grande porte, tanto que as janelas não eram janelas propriamente ditas, eram vigias e quem tenha decidido colocar a cabana naquele local tinha sido muito inteligente, pois aproveitou uma saliência natural de uma rocha para fazer de parede das traseiras e telhado também.

Lentamente percorreu o espaço ao redor, esta aparentava já não ser habitada há muito tempo, no entanto pelo estado exterior estava em melhor condições do que a sua própria cabana, até porque foi construída com materiais mais nobres, espreitou por uma das vigias, estava muito suja e lá dentro o ambiente era demasiado escuro para ver na perfeição, embora tenha vislumbrado uma mesa.

Dirigiu-se à porta, a única segurança que esta tinha era um ferrolho, abriu-o e empurrou-a com força pois estava um pouco empenada, entrou e esperou um momento no interior para se habituar ao ambiente mais escuro.

O pó e as teias de aranha imperavam no espaço onde se encontrava, observou que no seu lado direito existia uma cama, no centro uma mesa com dois bancos, ao fundo uma estante e à esquerda uma pequena escrivaninha, tudo isto eram sem dúvida mobílias de um navio.

Dirigiu-se à estante, abriu as duas portas e lá dentro encontrou louça, tachos e uma frigideira, um pequeno luxo na situação em que se encontrava.

De seguida foi à escrivaninha, abriu o tampo e encontrou 3 lápis: um muito gasto, outro aparentava ter sido usado algumas vezes e um novo, mas o que lhe chamou verdadeiramente a atenção foram dois cadernos de capa grossa, o primeiro tinha como título Log Book* e ao abrir o livro percebeu que estaria escrito numa língua que desconhecia, não percebia nada visto que só sabia português e ainda assim mal.

Já o segundo livro era uma Bíblia, mas continuava sem entender o que estava escrito – será isto Latim? – pensou. Voltou a pegar no primeiro livro desfolhando-o um pouco ao acaso, não entendia nada, mas percebia que era um diário, cada texto iniciava com uma data e enquanto desfolhava reparou também num desenho, era a ilha onde se encontrava, pelos vistos alguém teria feito o desenho da ilha como se fosse um mapa.

Olhou mais atentamente e verificou que um pouco a norte do local onde se encontrava estava uma cruz desenhada no mapa – estranho, tenho de lá ir em breve ver o que se trata – avançou mais umas quantas páginas, e reparou que existiam pelo menos três tipos de letra diferentes, aparentemente várias pessoas tinham escrito naquele livro.

Como tudo estava escrito numa língua que não conhecia, foi desfolhando, até que lhe apareceu uma página onde lá no meio leu de relance “(…) aqui são sempre 11h(…) ” – esta página está em português! – pensou, e começou a ler avidamente do início:

Não sei se isto vai ser lido por alguma alma, mas deixo a minha desgraça nestas linhas.

Eu e o meu amigo Alberto Silva viemos parar a esta ilha numa manhã de nevoeiro, pelas minhas contas estarei aqui há 7 meses.

Não sei onde estou, mas acredito que este pedaço de terra é na realidade a porta do inferno, aqui faz sempre calor, aqui são sempre 11h, e de onze em onze dias acontece o terror.

Nesse dia diabólico tudo muda, durante a noite cai um nevoeiro cerrado, tudo se mantém assim durante as primeiras horas da manhã, sem vento, o mar mais calmo que alguma vez observei, até que a ilha é atingida por uma tempestade violenta com ventos capazes de levantar um homem do chão por vários metros.

O único local seguro é aqui à beira do lago, embora violento o vento aqui permite sobreviver.

Depois tudo acalma, embora o nevoeiro se mantenha durante umas horas.

Quando chegámos, conhecemos o Bill, estrangeiro simpático e companheiro de desgraça, era Inglês, mas tinha estado no Brasil vários anos, pelo que nos conseguimos entender.

Contou-nos que estava aqui há anos, fazia parte da tripulação de um navio que deu à costa neste inferno num dia de nevoeiro cerrado, eram oito, mas foram perdendo a vida ao longo do tempo, todos afectados por uma doença misteriosa, explica que dá febres altas, delírios e morrem ao fim de alguns dias.

Como nós também chegámos num dia de nevoeiro, acreditamos que sempre que existe nevoeiro em algum local marítimo, quem lá passa pode vir aqui parar inexplicavelmente.

Há uns dias perdi os dois, o Bill e o meu amigo Alberto, tiveram a febre com delírios durante 4 dias, acabando por falecer.

Enterrei-os no cemitério a norte e vou tentar sair desta ilha, embarcando no meu bote numa manhã de nevoeiro, se cá vim ter no nevoeiro, pode ser que consiga sair.

Que a graça de Deus me acompanhe e que abençoe quem porventura ler isto.
Joaquim Ramalho

Não podia acreditar! Era o Ti Jaquim… e agora já sabia o que tinha acontecido ao seu pai!

Enquanto uma lágrima lhe corria pela face, fez contas aos dias que estava na ilha – faltavam dois para o nevoeiro – limpou a lágrima, decidiu por mãos à obra e mudar-se para este abrigo à beira do lago.

Tinha chegado a hora, era madrugada do trigésimo terceiro dia naquela ilha misteriosa, confirmava-se o que estava escrito pelo Ti Jaquim, de 11 em 11 dias ficava um nevoeiro medonho, uma tempestade terrível e mais nevoeiro, já tinha passado por duas, decidiu agir, preferia perder a vida a tentar sair daquele inferno solitário, do que ficar ali simplesmente à espera de ser infectado com a tal febre mortal.

Passou os últimos dias a preparar tudo ao pormenor:

Como crente que era, foi rezar junto à sepultura do seu pai, não sabia exactamente qual era, mas orou por todos, escreveu umas linhas no diário a contar o que lhe sucedeu e abasteceu a sua embarcação com imensas bagas e água, suficientes para alguns dias.

Acabara nesse momento de grelhar peixe que iria consumir nas próximas horas, acondicionou-o o melhor que pôde e embora não soubesse latim trouxe a Bíblia consigo, mais por uma questão de superstição, mas aconchegava-o.

Estava um nevoeiro cerrado, mas faltavam poucas horas para amanhecer o dia, levou a mão direita ao chão e agarrou num punhado de areia que deixou fugir por entre os dedos propositadamente, de olhar perdido, com medo, mas resoluto, respirou fundo e empurrou a pequena embarcação em direcção ao mar, deixando-se deslizar uns metros naquela água calmíssima e sem rebentação.

Não teria combustível para muito tempo, mas ligou o motor e adentrou pelo nevoeiro, rumo ao desconhecido.

Tem aqui as suas coisas – disse a enfermeira sorridente ao mesmo tempo que lhe passava um saco para a mão – o médico deu-lhe alta, estão aí roupas que o seu amigo lhe trouxe e está lá fora à espera para o levar para casa.

Agradeceu e espreitou para dentro do saco, o Zé Manel (amigo de longa data), tinha-lhe preparado uma muda de roupa, a sua carteira e também o relógio, sorriu e começou a vestir-se.

Não tinha grande consciência do que lhe tinha acontecido, explicaram-lhe que por pura sorte foi encontrado à deriva na sua embarcação, tudo indicava que teria dado uma queda e batido com a cabeça, estava inconsciente e foi transportado para o hospital mais próximo.

Esteve alguns dias em coma, até que acordou bastante confuso e a dizer coisas sem nexo, no entanto foi recuperando e depois de exames exaustivos, tudo parecia estar bem.

Já pronto, colocou o relógio no pulso e olhou as horas – 10h05 – veio-lhe à cabeça as recordações fabricadas pelo cérebro durante o coma, a ilha, o calor, o facto de serem sempre 11h, a cabana, o caderno com a história do pai e o nevoeiro com tempestades cíclicas de 11 em 11 dias – mas que raio – pensou – é de doidos!

Despediu-se da equipa de saúde, agradecendo os cuidados prestados e saiu, lá fora recebeu o abraço do amigo que o tinha vindo visitar religiosamente todos os dias, e seguiram para o automóvel deste que estava no parque de estacionamento.

Passou a maioria dos minutos da viagem calado, estava perdido nos pensamentos das suas memórias falsas, muitas delas tinha guardado só para si, pois após revelar algumas coisas percebeu a preocupação da equipa médica.

Da equipa pluridisciplinar, o psiquiatra tinha-lhe explicado que durante um episódio de coma, por vezes (embora raramente) ocorre, mas caraças, pareciam-lhe tão reais!

Foi interrompido pelo seu amigo – chegámos pá – olhou pela janela e percebeu que estavam estacionados à porta de sua casa – precisas de alguma coisa? – perguntou o Zé Manel.

– Não, estou bem, a sério, já nem tenho a dor na cabeça – respondeu ao mesmo tempo que apontou para o local da nuca onde teria batido com força.

– Olha – disse-lhe o amigo – não chegámos a encontrar as tuas chaves de casa, tens aqui as de reserva que me entregaste há uns anos, se quiseres torna a fazer uma cópia para mim, já se viu que pode dar jeito – e sorriu enquanto lhe entregava as chaves – a tua casa está em ordem, vim cá há poucos dias buscar roupa para quando tivesses alta, e coloquei em cima da mesa da cozinha umas tralhas que tinhas no barco.

Agradeceu, apertou-lhe a mão e saiu do carro em direcção a casa, entrou, e ainda acenou ao Zé Manel antes de fechar a porta, colocando de seguida as chaves numa mesinha junto à porta.

Dirigiu-se à cozinha, mas pelo caminho deteve-se à entrada da sala de jantar, olhou para uma moldura pendurada na parede em frente, era de uma foto dos seus pais muito antiga, observou durante uns segundos a figura imponente do seu pai, respirou fundo e encolheu os ombros confuso, decidiu continuar para a cozinha, era melhor verificar o que tinha na arca, possivelmente teria de fazer compras.

Ao entrar olhou de soslaio para cima da mesa, lá estava as tralhas que o Zé Manel tinha referido, a sua lancheira, duas garrafas onde costumava colocar vinho, o garrafão para a água e por detrás da lancheira…

Gelou!

Dirigiu-se para a mesa a tremer, olhou com atenção e não existiam dúvidas… era a Bíblia, a Bíblia da cabana!

O meu especial agradecimento à Liliana Rainha, pela excelente ideia que teve durante um brainstorm, a qual me levou a chegar a este final para a história.

*Log Book = Diário de Bordo

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Este texto não foi escrito de acordo com o novo acordo ortográfico.