A estação

Ali estavam, encontravam-se no momento da despedida que não desejavam, mas que era inevitável!

Ele estava a tentar manter a calma, não gostava de transparecer as suas emoções, mas sentia estar prestes a perder o controlo, numa tentativa de fugir à realidade passou os olhos fugazmente pelos belíssimos azulejos que decoravam a gare, procurou o enorme relógio da estação e percebeu que só faltavam 5 minutos para a partida.

Nos segundos seguintes deu-se conta que fazia parte de um contexto lógico, mas não conseguia recordar nada que não fosse o momento presente, não entendia como estava ali, mas também não tinha tempo para gastar com esse pequeno pormenor, a estação estava um corrupio, os carregadores de bagagens transportavam as últimas malas numa verdadeira azáfama, famílias inteiras estavam a despedir-se dos seus amigos e familiares, na área da 1ª classe vislumbrou umas senhoras com as suas sombrinhas, luvas rendadas de verão e vestidos impecáveis acenavam para alguém que já estava dentro da carruagem.

Passou os olhos pela locomotiva ainda imóvel, mas já ligeiramente fumegante e de seguida, finalmente ganhou coragem e olhou para ela.

Ao seu lado ela mantinha uma postura serena, os seus olhos enormes e expressivos estavam fixos nele, observava-o em silêncio como se soubesse perfeitamente a confusão que lhe ia dentro da cabeça.

Pousou a mala sem desviar o olhar dela, deu-se conta que era ali, era agora, o coração disparou-lhe descompassadamente dentro do peito, de repente tudo o resto deixou de existir, não existia som, não existia estação, não havia nada para além daquele olhar sereno fixo nele.

Esticou o braço direito e afagou-lhe o cabelo ao de leve, ela inclinou ligeiramente a cabeça para a esquerda de encontro à sua mão ao mesmo tempo que era puxada delicadamente ao seu encontro, abraçaram-se carinhosa e longamente, até que num ímpeto ele lhe beija a bochecha esquerda com uma ternura indescritível.

Sentiu-a estremecer, delicadamente afastou-o e ao mesmo tempo que com o indicador direito lhe tocava o nariz e tapava a boca disse – não, sabes que não posso… ainda alguém nos vê – as lágrimas começaram a rolar-lhe pela face – vai – sussurrou-lhe e o seu olhar dizia – adoro-te!

O chefe da estação imprimiu com força o tradicional som agudo ao apito de mão que sinalizava a hora do comboio partir, o cheiro a carvão da locomotiva intensificou-se e ele despertou daquele olhar hipnótico percebendo que os cinco minutos já se tinham esgotado.

Pegou na mala, apertou-lhe delicadamente a mão e sem nunca desviar o olhar disse-lhe – não me esquecerei de ti. Nunca! – deu uma corrida apressada de 5 ou 6 passos em direcção ao comboio, entrou com o objectivo urgente de se dirigir a um lugar à janela, vislumbrou o que queria, largou a mala atabalhoadamente em cima do banco e olhou lá para fora. Onde estava ela?!

A locomotiva começou a mover-se e deu-se um pequeno desequilíbrio, mas ainda a vislumbrou de costas, apressada e dirigindo-se para a saída da estação, não olhou para trás e ele não conseguiu chamá-la, ficou tonto, muito… sentiu-se a cair desamparado.

Com um pulo sentou-se na cama, de respiração ofegante demorou uns segundos a perceber onde estava, olhou para o relógio e este marcava 4h23, suspirou demoradamente enquanto coçava a cabeça.

Tinha sido um sonho, um sonho tão real como idiota pois ele só tinha conhecido locomotivas e senhoras de sombrinhas nos filmes ou fotografias antigas! – Enfim, tenho de tentar dormir novamente que daqui a nada é dia de trabalho – deitou-se outra vez e enroscou-se para a direita, quando fechou os olhos ainda pensou – parece que até sinto a textura da pele dela nos meus lábios – e sorriu.

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Este texto não foi escrito de acordo com o novo acordo ortográfico.